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"A experiência faz a vocação…"

A Polícia Militar do DF possui uma diversidade de profissionais fantástica. Tive a honra de conviver com os melhores durante minha carreira. O “Thiago” é um deles. Eu já era policial militar e o via nos corredores da UNB durante as aulas de administração, mais tarde tive o prazer de estudar com o Tenente Gomes Nascimento, uma pessoa com grandes qualidades e um curriculum supreendente para sua idade. Atualmente, concluiu o mestrado e já vislumbra o doutorado, além da publicação de um livro em breve! Sem falar que também é blogueiro…
Compartilho com os leitores uma entrevista, onde ele fala sobre seu último trabalho. Ainda não li seu trabalho do mestrado, mas um dia ele me mandará o arquivo. Tenho fé…(Tá me devendo..rsrs)
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Marina Lemle 15/09/2010 – 03:00.
Quanto maior o posto, a graduação e a idade do policial militar, melhor o seu ambiente de trabalho. E quanto mais tempo na PM e mais dependentes ele têm, maior a vocação e menores os conflitos. Policiais em cargos de administração são os que têm mais conflitos. Estas são algumas das conclusões da pesquisa “Polícia – uma identidade em discussão: construção, validação e aplicação de um instrumento”, feita pelo tenente Thiago Gomes Nascimento (foto), da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), para o mestrado em Psicologia Social pela Universidade de Brasília (UnB).
O tenente criou um instrumento de pesquisa – a Escala de Identidade Profissional Policial Militar (EIPPM) – para avaliar fatores subjetivos como o ambiente institucional e profissional, o relacionamento conflituoso e a abertura no trabalho, a vocação policial e o respeito profissional e social do policial. Para testar a metodologia, aplicou-a em profissionais da sua corporação.
Numa pesquisa qualitativa, ele realizou entrevistas com policiais militares do Distrito Federal e, a partir da análise do discurso, obteve 461 atributos de identidade, que foram condensados e então validados por oito policiais, resultando em 72 itens. Estes itens foram então organizados num formulário junto a 11 questões sóciodemográficas, para a pesquisa quantitativa. Foram aplicados 800 questionários, e o retorno foi expressivo: 600 – ou 75%.
O tenente comprovou cientificamente o que empiricamente já se sabia: os soldados sentem menos abertura e um ambiente menos favorável no trabalho. Isso se explicaria pela estrutura hierárquica das corporações militares, cujo modelo rígido de autoridade se baseia em ordens, comandos e disciplina. A falta de uma organização informal, segundo Nascimento, com mecanismos de cooperação e de trocas constituídas no reconhecimento mútuo de uma interdependência funcional, acabaria gerando o efeito inverso, de descumprimento do modelo.
“As tarefas consideradas mais complexas, arriscadas e autônomas, e, portanto, mais valorizadas, são atribuídas aos policiais de graduações e postos superiores, que consequentemente têm um tempo maior na Polícia Militar e mais idade. Resulta, daí, uma maior rotatividade das tarefas mais simples, menos valorizadas, dadas a policiais menos experientes, com menos tempo na PM e menos idade, que ficam impedidos de adquirir esse conhecimento e de inovar, questionar e decidir”, explica.
A correlação da idade e do tempo na Polícia Militar com uma ocorrência menor de conflitos se explica pela internalização de regras, valores e da cultura da corporação, além do reconhecimento do trabalho pelos colegas da corporação e da identidade profissional. “É notório que com o passar dos anos os conflitos entre policiais mais velhos de caserna tendem a diminuir, bem como os problemas oriundos de suas relações policiais em confronto com a família e com a sociedade”, diz Gomes Nascimento.
Nessa mesma linha de raciocínio, completa Nascimento, os policiais que ficam muito tempo no mesmo posto ou graduação sentem-se frustrados pela impossibilidade de progressão funcional e ficando acomodados por perceber uma menor abertura para assumir funções ou atividades exclusivas a postos ou graduações mais elevados.
Mais dependentes, menos conflitos
Um resultado que merece reflexão é o fato de que quanto mais dependentes o policial tem, menos conflitos em seu ambiente de trabalho. “É um dado de difícil interpretação. É necessário entender o indivíduo dentro de uma relação, e não mais isolado. O policial deixa de dar ênfase exacerbada à sua identidade profissional de policial, pois necessita desenvolver seus outros papéis – pai e esposo, cuidador da educação e formação de seus dependentes, integrado na comunidade em que reside”, interpreta o tenente, que é professor da disciplina de Gestão de Pessoas na Academia de Polícia Militar de Brasília.
De acordo com Nascimento, como estes outros papéis consomem tempo e dedicação e se sobrepõem ao que o policial desempenha profissionalmente, não sobra espaço para problemas oriundos de suas relações sociais no trabalho, ficando a sua identidade profissional restrita àquele ambiente.
Por outro lado, policiais com um número menor de dependentes, justamente por permanecerem no papel de policial, tendem a colocar a identidade profissional em primeiro plano, criando espaço para conflitos, seja com superiores, pares ou subordinados.
A pesquisa também identificou que quanto maior o número de dependentes, tempo de PM e idade do policial, maior a sua vocação. Um número maior de dependentes obriga o policial a ter mais responsabilidades. “Como é a profissão que lhe garante o sustento da família e a estabilidade, ele sente-se mais vocacionado, mais realizado com a profissão”, explica. 
Historicamente, segundo Nascimento, o quadro de pessoal da Polícia Militar é procedente de duas camadas sociais distintas: os oficiais são oriundos de estratos sociais mais privilegiados, onde tiveram acesso a uma boa formação e por isso, puderam enfrentar, com melhores chances de sucesso, o processo de ingresso na Academia de Polícia Militar. Já os praças seriam oriundos de estratos sociais mais baixos.
Entretanto, a polícia garante a seu profissional a possibilidade de ascensão funcional. Pelo menos em teoria, os policiais podem construir uma carreira. A vocação, portanto, vem sendo construída com o decorrer dos anos. Além disso, com mais tempo na Polícia Militar e mais idade, aumenta a sua percepção da própria vocação profissional.
Parâmetros para melhorar a formação profissional
De acordo com o tenente, o conhecimento sobre a identidade profissional dos policiais é muito limitado, o que o motivou a buscar uma forma confiável de se medir e avaliar esse fator. “A Escala de Identidade do Profissional Policial Militar é um parâmetro que permitirá às polícias brasileiras acompanhar e conhecer mais profundamente seu profissional. De posse desses dados, cada organização policial estará abastecida de informações suficientes e necessárias para implementar soluções ou programas que busquem o aperfeiçoamento do policial militar”, avalia.
Segundo Nascimento, o método será expandido a outros estados sendo utilizado para verificar a identidade profissional de tropas especiais, como os Batalhões de Operações Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais (Gate) e Espírito Santo. A pesquisa será realizada em conjunto por ele, representando à PMDF e a UnB, e a pesquisadora Rosânia da Fundação João Pinheiro de Minas Gerais.
O tentente, que é coordenador do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), e está pesquisando valores e atitudes de jovens e adolescentes frente ao uso de drogas, acredita que o esforço acadêmico faz do policial melhor profissional.
“Ao buscar o aperfeiçoamento acadêmico, o policial tem acesso a uma gama de conhecimentos que contribuem para melhorar sua percepção acerca da atividade que desempenha. Tive a oportunidade de conhecer diversos teóricos que estudam a polícia e passei a contribuir com o conhecimento sobre polícia, uma instituição que foi deixada de lado pelas ciências sociais”, afirma.
Para Nascimento, a presença de policiais na realização de pesquisas pode mudar esse panorama de desinteresse, aproximando polícia e a Academia e favorecendo a troca de conhecimento, a quebra de paradigmas e a desconstrução de preconceitos. “Este intercâmbio possibilita a melhoria do serviço prestado pela polícia à comunidade e contribui para que a universidade desempenhe seu papel social de propor e ajudar a construir uma polícia melhor”, conclui.
Em outros sites:
Ciência e Polícia – Blog do tenente Thiago Gomes Nascimento
Fonte: http://www.comunidadesegura.org/pt-br/MATERIA-policiais-militares-a-experiencia-faz-a-vocacao

Aderivaldo Cardoso
Aderivaldo Cardosohttps://policiamentointeligente.com
Especialista em segurança pública e cidadania, pós graduado pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília
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