A tentativa do PT de nacionalizar a disputa pelo Governo do Distrito Federal produziu uma cena constrangedora nesta semana. Durante evento de campanha em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou Leandro Grass, candidato petista ao Palácio do Buriti, de “Orlando”.

O detalhe que ampliou a repercussão do episódio é que Grass estava ao lado do presidente no momento da troca de nomes.

A informação foi publicada pelo Poder360, que registrou que o episódio ocorreu na terça-feira (6), no QG da campanha presidencial, no Lago Sul, durante uma transmissão pelas redes sociais.

Isoladamente, uma troca de nomes pode ser apenas uma gafe. Politicamente, entretanto, o episódio ocorre em um momento particularmente sensível para o PT no Distrito Federal.

Leandro Grass chegou ao segundo turno em clara desvantagem. Segundo os números oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, Celina Leão recebeu 825.530 votos, correspondentes a 49,93% dos votos válidos. Grass obteve 569.930 votos, ou 34,47%. A diferença foi de 255.600 votos.

Isso significa que Celina terminou o primeiro turno apenas 0,07 ponto percentual abaixo da maioria necessária para encerrar a eleição já naquela etapa.

O desafio de transformar Lula em votos no DF

O episódio também coloca em evidência uma questão estratégica para a campanha petista: até que ponto a popularidade e a estrutura política nacional de Lula conseguem ser transferidas para Leandro Grass?

O presidente entrou diretamente na campanha do candidato do PT. No mesmo encontro em que ocorreu a gafe, Lula mencionou a eleição brasiliense e afirmou que Grass teria informações relacionadas ao BRB para apresentar durante o segundo turno, embora, segundo o Poder360, não tenha detalhado quais seriam essas informações.

A estratégia indica que o PT pretende aumentar a temperatura política da disputa e utilizar temas nacionais e o caso BRB para tentar reduzir a vantagem construída por Celina nas urnas.

Mas existe um obstáculo matemático incontornável: o primeiro turno mostrou uma diferença expressiva entre os dois projetos.

Celina alcançou praticamente metade dos votos válidos. Grass ficou pouco acima de um terço. Paula Belmonte terminou com 8,51%, Kiko Caputo com 4,36% e Ricardo Cappelli com 2,23%.

Assim, a disputa pelo eleitorado dos candidatos eliminados tornou-se central.

Uma eleição que será decidida pelo Distrito Federal

A gafe de Lula oferece aos adversários do PT um argumento político evidente: a eleição para governador não será decidida pela força de lideranças nacionais, mas pela capacidade de cada candidato de convencer o eleitor brasiliense sobre quem está mais preparado para administrar o Distrito Federal.

Para Grass, o desafio é transformar o apoio presidencial em crescimento suficiente para superar uma diferença superior a 255 mil votos.

Para Celina, o desafio é diferente: preservar a ampla vantagem conquistada no primeiro turno e convencer parte dos eleitores que escolheram outras candidaturas de que seu governo representa a opção mais segura para os próximos quatro anos.

Nesse contexto, o erro de Lula não decide uma eleição. Seria exagerado atribuir tamanho peso eleitoral a uma simples troca de nomes.

Mas política também é feita de símbolos.

E ver o principal cabo eleitoral de Leandro Grass chamá-lo de “Orlando”, justamente quando o PT procura apresentar sua candidatura como alternativa para comandar Brasília, produz uma imagem politicamente inconveniente para uma campanha que precisa, antes de tudo, tornar seu candidato mais conhecido, mais competitivo e capaz de conquistar centenas de milhares de novos votos.

No primeiro turno, quem falou mais alto foram as urnas: 49,93% para Celina Leão e 34,47% para Leandro Grass.