Embora amplamente presente em celebrações e encontros sociais, o álcool está longe de ser inofensivo. Médicos alertam que a substância é tóxica, pode causar dependência e desencadear uma série de problemas que afetam o cérebro, os órgãos vitais e a vida social do indivíduo. A preocupação é reforçada no Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, lembrado em 20 de fevereiro.
De acordo com o psiquiatra Sérgio Cabral Filho, chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Base do Distrito Federal, o álcool interfere diretamente no funcionamento cerebral ao estimular o sistema de recompensa, responsável pela sensação de prazer. Esse mecanismo aumenta a liberação de dopamina, o que pode favorecer o uso repetido e evoluir para dependência.
O especialista destaca que a síndrome de abstinência alcoólica é considerada uma das mais severas entre as substâncias psicoativas, podendo apresentar complicações graves quando não tratada adequadamente. Além disso, o consumo excessivo está relacionado a comportamentos de risco, como dirigir sob efeito da bebida, envolvimento em agressões e intoxicações que podem levar ao coma.
Dependência compromete autonomia
A dependência química é classificada como doença e se caracteriza por prejuízos progressivos na rotina do usuário. Entre os sinais mais comuns estão o abandono de atividades antes prazerosas, isolamento social, queda no desempenho profissional ou acadêmico e a priorização constante do consumo.
Segundo Cabral, quando o indivíduo passa a organizar sua vida em função da próxima dose, há um indicativo claro de perda de controle. O estigma, porém, ainda dificulta a busca por ajuda. Muitos pacientes evitam o tratamento por receio de julgamento, o que pode atrasar a recuperação.
O médico também ressalta que o uso de álcool e outras drogas pode desencadear ou agravar transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e episódios psicóticos, especialmente em pessoas com predisposição genética.
Efeitos atingem vários órgãos
Do ponto de vista clínico, os impactos vão além do cérebro. A hepatologista Liliana Mendes, supervisora da Residência Médica em Hepatologia do Hospital de Base do Distrito Federal, explica que o fígado é um dos órgãos mais afetados, mas não o único.
Entre as complicações associadas ao consumo frequente estão esteatose hepática, hepatite alcoólica e cirrose. Em estágios avançados, podem ocorrer hemorragias digestivas, acúmulo de líquido na cavidade abdominal e até câncer hepático. O álcool também está ligado a doenças cardiovasculares, pancreatite e alterações metabólicas.
A médica ressalta que não há dose considerada totalmente segura. Mesmo ingestões moderadas podem provocar inflamações e agravar condições como hipertensão e diabetes. As mulheres, segundo ela, tendem a apresentar maior vulnerabilidade devido à menor capacidade de metabolização da substância.
Jovens exigem atenção redobrada
O consumo entre adolescentes preocupa ainda mais. Como o cérebro está em desenvolvimento, a exposição precoce aumenta o risco de danos duradouros e de surgimento antecipado de transtornos mentais. Especialistas defendem que o diálogo familiar e ações educativas nas escolas são fundamentais para prevenção.
Tratamento na rede pública
O tratamento da dependência envolve abordagem multidisciplinar, incluindo acompanhamento médico, suporte psicológico e, quando necessário, medicação. No Distrito Federal, os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) oferecem atendimento gratuito com equipes especializadas.
Para os profissionais de saúde, a principal mensagem é que a dependência tem tratamento e que buscar ajuda é um passo essencial para recuperar a qualidade de vida. Informação e acolhimento são ferramentas fundamentais para enfrentar um problema que, muitas vezes, se desenvolve de forma silenciosa, mas traz consequências profundas.
