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A escola de monges e a formação policial…

A intenção inicial era escrever um texto sobre mobilização interna, mas alguns fatores fizeram-me retornar ao tema formação policial. Após dez anos tive a oportunidade de visitar uma Escola de Formação enquanto seus alunos estão em atividade. Tive a oportunidade de conversar com alguns antigos instrutores da minha época de curso e com atuais alunos.
Vejo que não evoluímos, pelo contrário, regredimos muito. Antes que alguém comece a me xingar gostaria de dizer que essa frase tem vários significados. As instalações são maravilhosas, se estivessem prontas. Aqui vejo muito barro, valas abertas por todos os lados, prontas para “pegar” um aluno desatento que vive correndo desesperado para cumprir alguma missão. Temos vários montes de britas por todos os lados, armários a serem montados, muitas coisas interessantes, principalmente a falta de recursos mínimos para o trabalho administrativo.
Falar com os alunos é ver ao mesmo tempo a alegria no rosto por estarem no curso e a tensão (medo) por estarem em um lugar como esse. Não tenho dúvida que é um choque para maioria. Estão se tornando ótimos militares. A maioria já está marchando que é uma beleza. Assisti a uma aula sobre “hasteamento” da Bandeira Nacional. Alguns no sol, outros perto da grama, com vários “mosquitinhos” incomodando logo cedo.
A pergunta na boca de todos os alunos é: “quando aprenderemos ser policiais?”
Vejo que não há conflito. Todos estão satisfeitos e felizes. Adoram correr uma hora por dia, pagar flexão logo pela manhã, cantar canções militares, almoçar por três horas, ouvir vários gritos e depois meditar o dia inteiro como monges em um mosteiro. Tive um amigo comentando que teve várias câimbras por ficar tanto tempo sentado. Creio que esse seja o sonho da maioria que ainda não entrou na Corporação.
Aqui também tem muito espaço. Não sei porque ainda não chamaram o restante dos aprovados. É só apertar mais um pouco. Temos cinco pavilhões. Somente dois funcionamento como salas de aula. Aonde cabem setecentos alunos cabem mil e trezentos ou até mais, basta a vontade de nosso “comandante supremo”. Vejo que nossa Escola é igual coração de mãe. Sempre cabem mais uns mil.
Esqueci do detalhe. Em quase um mês de curso tiveram umas quatro aulas. Se bem que acho que me enganaram, pois tudo que estão fazendo nessa escola tem um objetivo. Tudo aqui é uma aula. Correr, marchar, meditar…
É uma nova metodologia de ensino. Ela é inspirada em monges. O silêncio é muito importante para nossa formação, principalmente para se evitar o conflito. A ausência de conflito é sinônimo de dominação. Ele é muito perigoso, pois quando ocorre gera mudanças. Em nosso meio isso nem sempre agrada a maioria.
O silêncio tem sua importância no rito de passagem. O homem careca “despersonificado” começa a receber uma nova carga cultural. O silêncio deve durar apenas o período necessário para perceber o quanto se precisa aprender…
Particularmente sou a favor da disciplina consciente, mas ela somente é adquirida com o tempo, após a formação do caráter. Vi o esforço dos alunos e instrutores. São heróis…
Infelizmente chegamos a triste conclusão: “gostaríamos de fazer o melhor, até mesmo algo diferente nessa formação, mas infelizmente não sabemos como. Apenas reproduzimos o que nos foi ensinado no passado.”
 Precisamos mudar essa realidade por meio da mobilização interna e da organização….

Aderivaldo Cardoso
Aderivaldo Cardosohttps://policiamentointeligente.com
Especialista em segurança pública e cidadania, pós graduado pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília
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