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Coluna – A Premier League paralímpica é aqui

O futebol de cegos (antes chamado futebol de cinco), ao menos para nós, brasileiros, é uma das modalidades paralímpicas mais populares. Considerando a paixão que a versão convencional mobiliza por aqui, não é difícil entender o porquê. Ao contrário do que ocorre nos gramados, porém, em que os principais atletas se concentram nas competições europeias, o que existe de melhor no esporte adaptado para deficientes visuais está aqui, no Brasil. Portanto, não é exagero dizer que o Campeonato Brasileiro de futebol de cegos equivale, por exemplo, à Premier League, como é conhecida a liga inglesa, a mais badalada do planeta.

Brasil e Argentina são as seleções mais vitoriosas da modalidade. Foram as únicas a ganharem o Campeonato Mundial, disputando entre si cinco das sete finais já realizadas. Os brasileiros são pentacampeões, quatro vezes batendo os hermanos, enquanto eles levantaram a taça em duas ocasiões, superando a equipe verde e amarela em uma delas. Na Paralimpíada, o domínio canarinho é total, com medalha de ouro nas cinco edições – em duas, entre elas a última, em Tóquio (Japão), no ano passado, vencendo os argentinos na final.

Para se ter ideia, os 12 campeões paralímpicos pelo Brasil em 2021 e metade dos convocados pela seleção hermana que foi prata nos Jogos de Tóquio estão no Brasileirão deste ano, que é disputado até domingo (13) no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, com entrada gratuita. Os argentinos representam 50% dos 18 estrangeiros entre os quase 120 atletas com deficiência que estão presentes na competição nacional – os goleiros do futebol de cegos, vale lembrar, têm visão normal.

“É a melhor liga do mundo. Não há outra igual. É muito competitiva e difícil. Todas as equipes querem ganhar”, resumiu o argentino Coki Padilla, que atua há nove anos no país, à Agência Brasil.

No time da Associação Gaúcha de Futebol para Cegos (Agafuc), de Canoas (RS), Padilla tem a companhia de Ángel Deldo, capitão argentino. Considerado um dos melhores jogadores do mundo, Ricardinho é um dos brasileiros com os quais os hermanos dividem o vestiário na equipe gaúcha. Os outros são Nonato (autor do gol do ouro paralímpico em Tóquio) e o goleiro Luan. Todos protagonistas da seleção verde e amarela.

“Antes de os argentinos atuarem mais no Brasil, tínhamos uma relação mais fria, porque apenas nos encontrávamos na hora do clássico. Sempre houve respeito, mas a rivalidade é grande. Com a convivência no clube, vamos vendo o outro lado. Não só o do atleta, mas o da pessoa, o caráter, os valores. O Coki e o Ángel são especiais”, declarou Ricardinho.

“O futebol de cegos é muito família. Desfrutamos do jogo e falamos muito com os jogadores brasileiros. O Brasil tem uma excelente seleção, que nos venceu muitas vezes. E é uma sensação curiosa, pois jogamos contra eles na Copa América, em Córdoba [Argentina, há duas semanas], cada um defendendo sua camisa. Agora estamos juntos de novo e celebrando. O gol não tem fronteiras”, comentou Padilla.

A lembrança da Copa América é amarga para os brasileiros, superados pelos argentinos nos pênaltis. Desde 1997, foi apenas a quarta vez, em 26 decisões, que o Brasil perdeu uma final para os hermanos. Nada, porém, que mexa com o ambiente no time gaúcho.

“Agora tem que aturar, né? Estávamos há cinco anos sem perder uma competição, então eles sabem que ganharam de uma grande seleção, como a deles também é. Mas eles [argentinos] têm uma maturidade legal e isso é bom para o futebol. Nas quatro linhas a coisa esquenta, no bom sentido. Fora [de quadra], todos têm uma postura muito legal. Convivemos nas horas vagas, tocamos violão juntos. É o mais importante”, afirmou Ricardinho.

Além da rivalidade

Não é só de Brasil e Argentina que vive o Brasileirão de futebol de cegos. O torneio ainda tem jogadores de Paraguai, Chile, Uruguai, Colômbia e Peru, distribuídos pelas 15 equipes participantes. Entre os veteranos está o paraguaio Hugo Ramírez, que disputa a competição desde 2011. Na edição deste ano, ele defende o time da União dos Atletas Cegos do Distrito Federal (Uniace), de Brasília.

“A seleção do Brasil é a melhor do mundo, então, jogar aqui é um grande privilégio. Crescemos muito tecnicamente, aprendemos com os melhores. Se você quer fazer bem, tem de vir jogar com eles”, declarou Ramírez.

A Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), de Porto Alegre, por sua vez, reforçou-se com o peruano Bryan Bartolo, eleito o craque da Copa América de Córdoba, além de ter sido o artilheiro da competição ao lado do colombiano Jhon González (que também defende a Acergs), ambos com cinco gols. É a primeira vez de Bartolo no futebol brasileiro.

“Um dos meus objetivos no Brasil era adquirir experiência e compartilhá-la com meus companheiros de seleção. O que já pude aprender, tentei somar para que fizéssemos uma boa Copa América e nos classificássemos para os Jogos Parapan-Americanos de Santiago [Chile, em 2023]. Agora quero seguir crescendo como pessoa e esportista, ajudando minha equipe”, destacou o peruano.

“Nosso campeonato nacional sempre foi considerado o melhor do mundo, mas cresceu nessa última década. Vieram jogadores sul-americanos e, às vezes, [contratam] algum europeu. São atletas de qualidade, que trazem um algo a mais, com algumas características diferentes do brasileiro. Tudo que vem para agregar é bom”, concluiu Ricardinho.

Olho no mata-mata

As quartas de final do Brasileirão de futebol de cegos começam nesta sexta-feira (11), com jogos às 9h, 10h15, 14h e 15h15, sempre no horário de Brasília. No sábado (12), as duas semifinais estão marcadas para 9h e 10h15. Por fim, no domingo, a decisão será às 9h, enquanto a disputa pelo terceiro lugar é disputado na sequência, às 10h30. O CT Paralímpico fica no quilômetro 11,5 da Rodovia dos Imigrantes, na zona sul de São Paulo.

A competição é organizada pela Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV) desde 2011. Duas equipes venceram o torneio de lá para cá: a Agafuc e o Instituto de Cegos da Bahia (ICB), de Salvador, ambos com cinco títulos. Os gaúchos são os atuais tetracampeões. Entre os participantes de 2022, três conquistaram a taça em edições anteriores à gestão da CBDV. O time da Associação Paraibana de Cegos (Apace), de João Pessoa, levantou o troféu quatro vezes, o da Associação Mato-Grossense de Cegos (AMC), de Cuiabá, o fez em três ocasiões e a Acergs em uma.

Redação
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