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A infantilização, o "cantinho da disciplina" e a avaliação do comportamento em nossa instituição

Quando paro para refletir sobre o sistema onde atuo não consigo desvencilhá-lo de minha época de “Ensino Fundamental”, especialmente o período compreendido entre 1985 e 1990, a educação no país ainda estava bem atrelada a militarização do estado. Nessa época entrávamos em “fila” todas as manhãs para cantarmos o hino nacional. Meu momento preferido era a “hora cívica”, meu sonho era hastear a bandeira nacional.

Sempre procurei ser um bom aluno, mas sempre estive atento as “recompensas” e “punições” dentro do sistema. Estudei na Escola Classe 416 sul (no final da Asa Sul). Todas as salas possuíam um espaço, semelhante a uma “solitária” (um beco isolado), que eventualmente tornava-se o “cantinho da disciplina” para aqueles que cometiam “desvio de conduta”. Lá a professora tinha um caderninho onde avaliava o “comportamento” de cada aluno. Tínhamos alunos no “bom comportamento” e alunos no “mau comportamento”. Quando fazíamos o que ela mandava “direitinho” ela nos dava uma “estrelinha”, o que depois descobri que era um tal de F.O Positivo. Lembro-me também que recebíamos certificados de honra ao mérito, recebi dois com muito orgulho, um na 3ª série e outro na 4ª série. Ainda os guardo com carinho. Parei para analisa-los e achei os “dizeres” contidos neles muito semelhantes a alguns elogios que recebi na corporação e resolvi compartilhar com os leitores.
DIPLOMA DE MÉRITO ESCOLAR
A ESCOLA CLASSE 416 SUL confere ao aluno (a) ADERIVALDO MARTINS CARDOSO, matriculado (a) na 4ª Série, Turma A, DIPLOMA DE MÉRITO ESCOLAR, pela sua dedicação aos estudos, durante o ano letivo de 1988, sendo um exemplo digno de ser seguido pelos colegas.
Brasília – DF, 09 de dezembro de 1988

Antes que alguns se levantem contra tal texto, quero afirmar que é um texto meramente nostálgico de um tempo que eu gostava muito. Ao ingressar na PMDF em 01 de outubro de 1999 tive a mesma sensação do primeiro dia de aula no “pré-escolar”. Perdido, muitos correndo, outros chorando, gritaria para todo lado, dentre outras observações que prefiro não comentar. Na sala de aula levantávamos quando o professor entrava, semelhante a uma antiga novela mexicana chamada “Carrossel”, semelhante a novela, a diretora também era muito temida. Lembro-me também que durante o curso havia a “hora cívica” e que também ficávamos em fila, mas agora diziam que eu estava em “forma”, com as mãos para trás, olhando para a nuca do companheiro da frente, ou simplesmente olhando para o horizonte, ouvindo atentamente o que alguém falava ao longe.

Em minha nova “escola” também havia o “cantinho da disciplina”, tinha algo chamado FO (fato observado), um caderninho que oficiais andavam anotando tudo. Lembro-me que como a professora do jardim de infância eles também observam meu cabelo, minhas unhas, minha roupa, que lá chamávamos de farda. Também davam certificados e elogios ao final do curso.Quando viam algo de errado éramos proibidos de ir para casa. As punições iam desde catar folhinhas, limpar banheiros, fazer faxina em todo quartel, até corrermos feito doidos para ficarmos exaustos e darmos menos trabalho. Cansando o corpo a mente “desacelerava”.

Ainda hoje, treze anos após terminar o “curso de formação” meu comportamento ainda continua sendo avaliado, atualmente consideram meu comportamento excepcional. Como na escola continuo observador com relação as recompensas e punições. Durante meu curso, assim como no ensino fundamental, nunca fui punido. Nunca fui para o “cantinho da disciplina”. Em alguns casos a professora me chamava e me repreendia, assim como ainda tentam fazer comigo, pois sempre respeito as regras “impostas” a mim, apenas falo o que penso, mas sempre com muito respeito e educação, pois foi assim que aprendi com meus pais e minhas queridas professoras do jardim de infância.

Ultimamente tentam me impedir até mesmo de escrever um texto “inocente” e “nostálgico” como esse. Recentemente escrevi um texto sobre “a infantilização na PMDF” e causei o maior alvoroço nos bastidores da Corporação. Acredito que uma instituição de pessoas sérias ao invés de procurar culpados por nossa infantilização, ou querer punir quem expôs o problema, deveria focar na SOLUÇÃO DA PROBLEMATIZAÇÃO LEVANTADA. Precisamos assumir nossas falhas e a partir disso crescer! Assim, somente demonstramos o que todos já sabemos…

É interessante conhecermos “A pedagogia da libertação” contida no livro: “Pedagogia do oprimido”. Faz a diferença para quem acredita em mudanças em nosso meio.
“O fracasso educacional deve-se em particular a técnicas de ensino ultrapassadas e sem conexão com o contexto social e econômico do aluno, mantendo-se assim o status quo, pois a escola ainda é um dos mais importantes aparelhos ideológicos do Estado.”

Aderivaldo Cardoso
Aderivaldo Cardosohttps://policiamentointeligente.com
Especialista em segurança pública e cidadania, pós graduado pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília
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